Tenho uma nova fobia. Ao medo de aranhas, aranhiços e amigos de muitas patas junta-se agora o receio das varandas. Não sei se a ciência tem algum nome para o fenómeno, mas se não, aqui fica uma sugestão: varandofobia. Pouco original, eu sei, mas a experiência recente retirou-me toda e qualquer capacidade imaginativa quando o tema é… varandas, esses monstros que dão acesso ao exterior e que são verdadeiramente capazes de nos tirar do sério.

Muito exagerada? Posso parecer, mas o que me aconteceu há dois dias deixou marcas tão profundas que talvez só muitos anos de terapia vão conseguir minorar. Ora estava eu transformada em fada do lar – o que, é um facto, só acontece em raras ocasiões – quando decidi estender a roupa, um acto simples que, pensava eu, envolve pouco risco. Pois não podia estar mais enganada. Deixei o puto às voltas com uma revista na sala e dirigi-me para a varanda de um dos quartos. Abri a porta, que é de correr, e quando a quis encostar aconteceu o imprevisto: fechou-se no trinco, sem me ter dado qualquer hipótese de a abrir. Resultado: fiquei presa do lado de fora, com um miúdo de três anos sozinho do lado de dentro.

Aqui, começou o pânico.
E agora? – pensei eu, ainda mais ou menos calma. Comecei a bater intensa e violentamente no vidro, decidida a chamar a sua atenção. Mais ou menos dez minutos depois lá apareceu o rapaz, com um olhar intrigado. Expliquei, calmamente, que a mãe estava presa na varanda e que precisava que ele me abrisse a porta. Até aqui, tudo bem e a esperança de entrar em casa reavivava-se. O moço bem tentou, mas aquele coisa é a prova de crianças e nada de mexer. Passámos então ao plano B: ligar para o pai da criança e pedir para ele se despachar a chegar a casa e me salvar.

O rapaz lá foi buscar o telemóvel, mas a porcaria da coisa estava bloqueada. Ainda mais ou menos calma, pedi-lhe para ir buscar o telefone fixo, que a bem da verdade é móvel, que se encontrava numa das prateleiras mais alta do móvel da sala (exactamente para ele não conseguir lá chegar). Mais dez minutos de espera e regressa sua excelência, de mãos vazias: “Não consigo lá chegar”, disse ele.

Porra, pensei eu. E virou-me costas, regressando à sala, indiferente aos meus apelos para que ficasse ali, a fazer-me companhia.

Meia hora de gritos, pontapés, murros no vidro, pedidos de socorro, lágrimas e muitos pensamentos negativos depois (o que é que ele está a fazer sozinho, será que está a pôr os dedos nas fichas, ou foi à cozinha buscar facas, será que subiu para cima da mesa e caiu), lá volta o moço, bastante irritado: “O que é que foi agora?”, disse, do alto dos seus três anos. “Estás a fazer muito barulho. Não consigo ler a revista.”

Nessa altura, quase uma hora depois de me ter trancado na varanda, confesso que a racionalidade já se tinha ido… a ideia de me mandar dali para baixo estava a ganhar cada vez mais consistência e nem o facto de ser um primeiro andar, mas equivalente a um terceiro, me fazia considerar. Pedi-lhe, ou melhor, implorei-lhe que fosse buscar o telemóvel (outra vez!), que eu precisava que ele me salvasse. Mas o rapaz tinha outras preocupações e voltou para a sala, sem me dar qualquer atenção.

Nova ronda de gritos, pontapés e afins e dá-se o regresso do jovem, ainda mais irritado. Tentei fazer-lhe ver que estava presa, que não era uma brincadeira e lá o convenci a ir novamente buscar o telefone. Estávamos quase a conseguir desbloquear a coisa quando ele diz: “Está a chegar alguém!”

O alívio apoderou-se de mim… Mas ainda tive que esperar mais um pouco… É que em vez de ter pedido ao pai parta me ir libertar, ele ainda teve tempo para lhe propor um jogo: “Vê lá se adivinhas onde está a mãe?”

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