O céu estava azul. O mar calmo. No cais de embarque, com o seu mini colete salva-vidas já bem apertado, o G. esperava ansiosamente por entrar a bordo do ‘Estou para ver’. Olhou para mim com uma ansiedade mal contida e eu pensei, com um orgulho desmedido, que o rapaz já não era mesmo um bebé. Claramente sai à mãe, veio-me de imediato à mente.

O capitão assumiu o seu posto e dirigiu-se às cerca de duas dezenas de pessoas que aguardavam pela oportunidade de ver Cascais a partir do mar.

“Isto não é nenhuma brincadeira”, disse o ex-pescador. “Saber colocar o colete salva-vidas como deve ser pode fazer a diferença entre a vida e a morte”, acrescentou. E continuou o seu discurso. Ao longo de cerca de quinze minutos, que mais pareceram duas horas, explicou o quão horrível pode ser a morte no mar, que morrer afogado não é pêra doce, que temos que ter cuidado com as rochas, para não morrer esmagado… Em cada fase, a palavra morte, usada como substantivo ou verbo, teve sempre lugar marcado.

O G. olhou para mim e gritou, com a força permitida pelos seus pequenos pulmões, um “não” aterrado. Eu esbocei um sorriso amarelo e fingi não ter percebido. Enfiei-lhe à pressa um doce na boca, na esperança de que se calasse. Sem resultado, Ele voltou a gritar, uma, duas, três vezes… “Eu não vou! “, dizia, quando o que queria mesmo dizer era: “não me deixes ir para a morte certa”.

Conclusão: depois de me ter levantado às sete da manhã de um domingo, de ter andado a correr, em stresse, no dia destinado ao descanso, o que deveria ter sido o nosso primeiro passeio de barco a três acabou connosco em terra, a ver o barco desaparecer no horizonte.

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