A gritaria foi grande. Depois de um dia de correria e brincadeira, a recusa em tomar banho e subsequente escarcéu valeu-lhe um castigo: ficou sem direito aos aparelhos eletrónicos de que tanto gosta e depois do jantar, o destino foi o quarto (que não é lá grande castigo, é certo, já que se encontra cheio de brinquedos e distrações).
– A minha vida é muito má! – gritava ele, informado com a situação. – Nunca mais vou sair deste quarto.
– Eu não disse até quando é que ficavas de castigo. Sair só depende de ti – disse eu, numa tentativa de acalmar o drama.
– Não, eu não mereço sair. Vou ficar aqui para sempre.
– Para sempre? É isso que queres? – questionei eu.
– Sim. Para sempre! Ah, mas não te esqueças de quando eu tiver 70 anos me vires tirar desta cama. Nessa altura já não devo conseguir.

Não conheço outro com tanto jeito para dramatizar. Em tempos quis ser ator. Já não quer. Agora percebo que vai passar ao lado de uma grande carreira.

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