Impressionada com o lado estudioso do rapaz, a avó que o vê menos vezes, por força da distância, decidiu recompensar o seu recém adquirido empenho académico. E comprou-lhe um livro que ele queria muito.
– A avó mandou este livro para ti, por andares a estudar tanto – disse-lhe eu.
O olhar dele iluminou-se, mas apenas por instantes. Manteve-se calado, algo que a experiência me diz que significa sempre alguma coisa.
– Não querias o livro? – voltei eu à carga.
– Sim…
E novo silêncio.
– Se não o queres, eu devolvo.
– Não… É que… hoje fiz uma birra.
– Fizeste uma birra? – perguntei eu, fingindo surpresa.
– Sim. Não queria fazer os trabalhos de casa e gritei um bocadinho.

Agora foi a minha vez de ficar em silêncio. Qual cena de duelo de um filme de cowboys, olhámos um para o outro. E os dois para o livro.

– Prometo que não volto a fazer – disse ele. – E já agora, posso ficar com o livro?

No fundo, eu sabia que a única coisa que lhe interessava era o livro. E que isto de estudar e de fazer, de forma voluntária, os trabalhos de casa tinha um prazo de validade muito curto. O que eu não sabia era a rapidez com que uma pessoa se pode habituar à versão estudante.

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