O desejo súbito que ele tem de ser independente, ao mesmo tempo que me agrada (confesso que não me importava que ele deixasse de me pedir a toda a hora para lhe escovar os dentes ou calçar os sapatos), confirma que o rapaz está crescido. E que o tempo passa mesmo muito depressa.

– Quando é que posso ir sozinho para a escola?
A pergunta, disparada logo de manhã quando saíamos de casa, apanhou-me de surpresa. De facto, a distância não é grande, mas as estradas que temos que atravessar são o suficiente para que a resposta seja negativa.
– Vais quando fores maior – respondo.
– Podia ser já hoje.
– Mas qual é o motivo da pressa? Não gostas da minha companhia?
O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente. Ainda assim, decidi voltar à carga.
– Não gostas da minha companhia?
– Não é isso… Mas diz lá, quando é que posso ir sozinho?
Expliquei-lhe que a estrada que tínhamos que atravessar era perigosa (claro que não disse que perigoso é ele a atravessá-la, com a sua mania de parar a meio para confirmar que não há carros a passar), que o melhor era fazermos o percurso juntos, mas depois pensei que o rapaz até merecia que lhe desse um voto de confiança. Por isso, cruzámos juntos a estrada mais complicada e depois despedi-me dele e deixei-o ir, sozinho, os 500 metros restantes, decidindo omitir que o ia seguir sem que ele me visse.
E lá foi ele… Ainda se virou para trás umas quantas vezes, o que me obrigou a entrar em modo furtivo e a esconder-me por detrás de uma ou duas árvores, a encolher-me ao lado dos postes e agachar-me junto a um contentor do lixo, até confirmar que ele tinha entrado, são e salvo, dentro da escola. Missão bem sucedida, pensei eu.

No regresso a casa, o pai perguntou-lhe:
– Então hoje foste sozinho para a escola?
– Achas? A mãe foi atrás de mim o caminho todo!

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