Existe, lá em casa, uma ditadura no que à televisão diz respeito. E o ditador tem apenas 9 anos.
A televisão tem que estar sempre ligada quando ele está em casa. E isto acontece mesmo quando ele não se encontra na mesma divisão que o aparelho.

E tem que estar ligada nos canais que sua excelência gosta, que são quatro – dois de desenhos animados e dois de desporto -, isto apesar de termos dezenas ao dispor. É assim, hora após hora, dia após dia, com os adultos apenas a terem descanso quando ele está na cama ou fora de casa. Aí sim, podemos dizer que o comando é nosso. Mas só aí.

Num destes dias em que cometi a ousadia de mudar de canal quando, chegada à sala, a encontrei vazia (ele estava no quarto a ler), o rapaz revoltou-se. Não foi preciso um minuto para que aparecesse. E não disse nada. Olhou apenas para o comando, que estava em cima do sofá.

– Eu estou acabar de ver um filme. Por isso, não mudes agora de canal – pedi eu, educada e calmamente.
Ele olhou para mim, arregalou os olhos, bufou e virou costas, partindo na direção do quarto.

Assim que o filme acabou, não mais do que cinco minutos depois, fui ao seu encontro e informei-o que já podia ir ver o que queria.

– Agora não quero! – disse ele, com um tom desafiador, como se isso me importasse alguma coisa.
– Tu é que sabes. – disse eu.
– Não é justo… – voltou ele.
– Ai não? Então tu é que vês sempre o que queres e eu não podia ver, durante cinco minutos, o fim de um filme? – questionei, achando que o rapaz ia perceber que a injustiçada era eu.

– Mas eu sou uma criança e tenho que ver televisão para alimentar o cérebro. Tu já não precisas.

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