Acabado de chegar a casa, correu à procura de uma caneta e de um papel e começou a escrever.

– O que estás a fazer? -pergunto-lhe, curiosa com tamanha concentração.

– É privado! – responde-me.

Não voltou a falar. Continuou compenetrado na escrita até que trocou o papel pela guitarra, que dedilhou, entoando um melodia.

– Estás a fazer uma música? Deixa-me ver? – a curiosidade estava a tornar-se difícil de controlar.

– Sim, mas não podes ver. Já te disse que é privado!

Escusado será dizer que não descansei enquanto não me mostrou a letra da música, que começava assim:

“Acho importante

o que está a acontecer

Vejo muita gente de traz para a frente

Vejo que a vida está diferente

Vejo que a vida é traiçoeira

Vejo que ninguém anda à minha beira”

E depois de tanta insistência, de pedinchar e mais pedinchar, até acho que merecei a resposta que me deu quando lhe perguntei se ia dedicar a música à sua querida mãe.

– Não. Nem um bocadinho.

 

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