O meu amigo E.T. é pai recente. E de primeira viagem. E é com nostalgia que o oiço falar e com saudades (e alguma inveja, confesso) que acompanho as suas aventuras com um bebé. Eis um dos seus mais recentes desabafos, partilhados em forma de texto:

“É hora de almoço. E sinto-me um pouco culpado por ter deixado o puto hoje mais cedo na creche. Ele dá-se bem por lá, mas sinto sempre que o estou a abandonar um pouco. A facilitar. É hora de almoço e quero ir lá à creche vê-lo. Espreitá-lo. Ver se está tudo bem. Dar-lhe mimo e brincar com ele um pouco. Mas sei que é contraproducente e que vai doer-lhe mais ver-me partir. Já consigo ver o futuro… quando ele não me vai ligar nenhuma, ser independente, querer estar com os amigos. Tudo começa aqui, na creche, no mundo. Mas por agora sinto-me apenas menos bem comigo próprio por não ir lá ter com ele. Dou por mim a pensar que estou meio aluado. Cansado. Parece que já passou um dia inteiro. Mas é hora de almoço. Depois lembro-me que passei boa parte da noite, pelo menos até às 4h, a ir lá ao quarto ter com ele. Expectoração e nariz entupido, perda de chucha com a tosse, incómodo. Dificuldade em respirar e de 10 em 10 minutos alguma forma de gemido e queixas, mesmo de olhos fechados e a dormir. E lá ia eu a correr. Sim, a correr. Quando o puto está aflito vou a correr. Até às 2h da matina estive a ver uma série, Young Pope. Parei o episódio mais de 10 vezes. Tirei o gato das pernas e a manta mais de 10 vezes. Corri para o puto mais de 10 vezes. Depois das 2h tentei dormir. Mas ele foi acordando e, para o ajudar, meti-lhe gotas no nariz. Ele não gostou, berrou, mas logo parou. Não é puto de ficar ofendido. Passa depressa. Mudei-lhe a fralda. Dei-lhe biberão, para ver se aliviava. Acabei por lhe puxar o ranho com um extrator… o que ele detesta – eu também… -, mas teve de ser. A babe está adoentada e também ajudei-a a aquecer as mãos. Sou um aquecedor portátil, mesmo com o meu pijama habitual apesar do frio: calções e t-shirt, thank you very much. Nunca fiz tanto na vida mas dar apoio ao puto é um gosto. Sempre que saia do sofá ou da cama – é certo que quando saía da cama já estava zombie (não é uma referência ao Walking Dead, que não vejo) e custava mais. Mas saltava sempre a bem com o mundo… e logo me lembrava de noites onde me levantei para ajudar os meus irmãos, bem mais novos. Havia sempre um secreto e pouco óbvio prazer em estarmos todos juntos, acordados, por doença, vómitos, ou whatever (peço desculpa pelos anglicismos, foi mais forte do que eu), de madrugada, no silêncio da noite. É nesses momentos que se criam famílias e laços. Bem, (ainda) é hora de almoço. A conversa já vai longa e tenho mais do que fazer. Comi um pedaço de pizza ali perto das 13h, numa pizzaria no interior do metro (politano) – sim, existem, na Alameda -… 1,5 euros. Era mázita mas a noite também me tirou a fome. Fica isso o meu almoço. Até uma próxima hora de almoço. Vemo-nos por aí.”

Anúncios