Pais há muitos. Recentemente, ao reparar num artigo do Observador chamado “Eles querem ser mais do que apenas o pai que chega a casa“, dei por mim (dou muitas vezes por mim… agora com o puto menos) a pensar: 1º, em como o título demonstra logo alguma “descriminação” face ao pai; 2º, em como o homem tem de lidar com algo a que muitos na sociedade (mesmo a actual, mais moderna) não acolhem com facilidade. Esta ideia do pai ser cuidador presente em tudo que envolve o filho.

Vamos por partes. O título do artigo do Observador, escrito pela jornalista Ana Cristina Marques, usa um “Eles” logo a abrir. Não são os pais ou o pai, mas eles. Eles estão longe. São os outros. Os externos, que estavam lá fora e agora “querem”, até porque têm esse direito e essa vontade, desejo e necessidade (gosto mais destas palavras do que “querem”). Depois continua: “apenas o pai que chega a casa”. Pode parecer uma embirração desnecessária sobre um título. E é. Mas revela qualquer coisa que está impregnado na sociedade que em questões de nascimento de putos é puramente materna.

Faz sentido, atenção. Da mesma forma que a mulher (ainda) tem de lutar na sociedade actual por igualdade em tantas áreas, das chefias de empresas, aos salários iguais, às oportunidades na política, os homens têm de ir lutando contra os preconceitos de quererem ser pais presentes, activos e determinantes na vida do filho ou filha acabada de nascer.

Eu nunca decidi ser um pai presente. Nunca pensei muito nisso antes de ser pai. Acho que pensava mais em que tipo de pai queria ser quando era pré-adolescente do que depois, como adulto. Quando o puto nasceu nunca aceitei não estar presente. Quis fazer tudo o que era possível. Tinha jeito em pegá-lo, mudar-lhe a fralda – até porque cuidei bastante do meu irmão 14 anos mais novo e voltei a lembrar-me desses tempos (!) – e gostava de cuidar daquele pequeno ser. Cá em casa sempre dividimos as tarefas e como não me ajeitava tanto a fazer comida, a maior parte das vezes cuidava até mais do puto, ou ia em seu auxílio no início da madrugada quando ele acordava. Hoje em dia temos um sistema. Sou eu que despacho o puto de manhã e o meto na creche, por exemplo. Sempre. Sou quase sempre eu que dou banho e lhe dou a comida em casa. É divisão de tarefas por completo e eu esquivo-me a fazer a MUITA comida e lavar a MUITA roupa do pequeno ser.

Algumas pessoas da família não percebem esta participação tão activa. Ou não percebem que quando o puto está mais impertinente ou chorão até é o pai que o consegue acalmar com mais facilidade. Ou que é o pai a dar banho, por o creme, a fralda, secar-lhe o cabelo e vesti-lo. Mesmo fora da família há quem não acredite quando é o pai a dizer qualquer coisa sobre as rotinas da criança, ainda há aquele “é melhor perguntar à mãe”… Como se o pai não pudesse ser especialista no seu filho.

São pequenas coisas no dia a dia, onde as pessoas mais velhas (e não só) têm maior tendência em descriminar por ser pai e não mãe. Não é nada que me fruste particularmente e percebo de onde vem: da tradição, dos costumes, da tendência antiga. Mas há momentos em que apetece explicar em voz alta: lá por ser homem não quer dizer que não queira passar o máximo tempo possível com o puto, especialmente nesta fase fofinha (que também dá trabalho intenso, claro). Lá por ser homem não quer dizer que não queira cuidar dele.

O artigo do Observador fala em como os homens são elogiados pelas tarefas mais pequenas. Sim, há pessoas que o fazem, é verdade. Às vezes até sabe bem ouvir, claro. Só que a maior parte desses comentários são condescendentes. “Ele até muda a fralda e dá banho, quem diria”. Sim, dou. E? Condescendência não é elogio, bem pelo contrário. A mãe também está na mesma situação que o pai, a apalpar terreno e aprender pelo caminho e tem BEM MAIS pressão para fazer tudo e bem (já para não falar na amamentação a seu cargo e no facto de ter acabado de dar à luz…). Aí quem é pai tem um papel de tentar ajudar – mudar consciências – e é nessa altura que também acaba descriminado por alguns preconceitos e por algumas pessoas.

by ET

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